quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Não aprendi dizer adeus



"Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé.” (2 Timóteo 4:7)




Penso em encerrar este ciclo há algum tempo. Mas faltavam-me palavras, que teimaram em se afastar de mim por alguns meses.

Gosto de escrever. Desde a adolescência. Antes que alguém se antecipe - conheço bem meus amigos consumidores de "palhacitos" -, sim, ainda tenho um colossal trecho a percorrer na estrada do aprendizado e do aprimoramento.

Comecei a arriscar alguns pensamentos em postagens na rede social. No entanto, o espaço era limitado e as notas se perdiam no tempo. Decidi, então, começar este blog, onde poderia desenvolver textos um pouco mais extensos e acessá-los com mais facilidade.

O exercício periódico tornou minha escrita mais fluida. Tive uma boa receptividade. Meus amigos foram-me generosos e teceram-me elogios hiperbólicos, invariavelmente.

No último semestre, minha mente sofreu um apagão. Um bloqueio. Um branco. Um vazio. Blackout, I really had a blackout. Faltou-me vontade e disciplina para sentar em frente ao monitor e rascunhar algumas palavras. Sim, houve uma razão - talvez um dia retorne ao tema.

Durante a existência deste espaço, escrevi alguns artigos voltados ao Direito, que não eram compatíveis com a proposta deste blog. Não faria sentido publicá-los aqui. Havia a necessidade de hospedá-los em algum lugar. Um pequeno problema que reclamava uma solução.

Concomitantemente, minha esposa - que caridosamente é minha revisora, primeira leitora e crítica - anunciou que lhe despertava também o interesse em escrever.

Em razão deste turbilhão de acontecimentos, esta miríade de episódios, é que surgiu, cresceu, amadureceu e sedimentou-se a idéia de começar uma nova etapa literária deste charlatão das letras. Agora, acompanhado - muito bem, diga-se de passagem -, ainda que esporadicamente.

Manterei este blog na rede mundial de computadores, enquanto o domínio blogspot o hospedar. Afinal, a recordação de meus primeiros passos trôpegos merece permanecer indelével no ambiente virtual, com o carinho de quem tirou valiosas lições desta jornada. Ainda tenho dúvidas se vou transferi-los para a nova casa. Era a minha intenção inicial, mas acabei por perder o timing. Talvez refaça o planejamento.

Portanto, conforme já ficou claro nestas mal traçadas linhas, não se trata de um adeus. Apenas um "até breve".

Espero que possam me acompanhar na construção e no desenvolvimento de minha nova casa: "Direito, devaneios e doçura" - um frágil equilíbrio entre o polemista e a ponderada, com algumas pitadas jurídicas. Ou, “As elucubrações do casal coxinha”

Acho que já tem um texto pronto para recebê-los … ou não. (Assim que eu conseguir terminar de montar o blog no wordpress, que parece não querer colaborar com minha nova empreitada)


ATUALIZADO: há um post de boas vindas aqui.


quinta-feira, 11 de junho de 2015

Quando se perde o foco






"Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas as coisas convêm; todas as coisas me são lícitas, mas nem todas as coisas edificam”. (1 Coríntios 10:23)


Certa feita (“era uma vez”, diria-se outrora), existia um rapaz.
Poderíamos chamá-lo de William, Guilherme (“é a mesma coisa” - eu sei), Leandro (também te amo), ou Antônio (pensou que eu o deixaria para trás?). Já que estamos a render homenagens, batizar-lo-emos de Paulinho.


Devoto. Seria confundido com um radtrad se não professasse outra crença. Camisa engomada com esmero pela mamãe Maria Helena. Tinha por hábito abotoá-la até a última casa, não importava o clima. Cabelos cuidadosamente alinhados, regularmente aparados (frequentemente, acordava, num frêmito, com a imagem fixa de que lhe restavam apenas cinco fios em uma vasta área calva). Um português irrepreensível. Flexivel como uma rocha. Ou uma liga de adamantium. Auxiliava a família principalmente cortando lenha para o fogão e a lareira.


Mas Paulinho era dado a valentias. Começou cutucando onças no retorno para casa. Cutucou uma, cutucou duas, cutucou três vezes. Alegrava-se com a reação delas. Por vezes, apenas corria. Outras, regozijava-se ao fazê-las de tolas. Ora, bradava acintes. Voltava radiante, peito estufado, sentindo-se triunfante. Estava pronto para conquistar o mundo.


Fazia ouvidos moucos aos alertas do irmão, “minino, isso não vai acabar bem”.


Paulinho escarnecia: - Maricas. Está a me cercear. Tudo posso naquele que me fortalece.
Com o tempo, a tarefa diária de cortar lenha para a família cedeu espaço à aventura de cutucar onças. Onças maiores. Varas mais curtas.


Um dia, Paulinho se viu cercado por onças. Fugir, impossível. Gritar, inútil. Atacar, inviável. Deixou o machado cair, fora de seu alcance. Uma das feras, talvez a mais enraivecida, tomou a iniciativa e abocanhou sua mão direita. Imediatamente, desfaleceu.


Acordou em um leito. Desorientado, suas pernas ainda tiveram o espasmo de correr. Contido, indagou pelo seu Salvador. O irmão respondeu, “eu sempre o observava à distância, para não irritá-lo, pois meus reclamos eram inúteis e temia pelo pior”.


Hoje, Paulinho não corta mais lenhas. Nem cutuca onças. Precisa de auxílio para as tarefas básicas. Constrangido, é obrigado a permitir que fechem sua braguilha. Blasfema.


Ainda não aceita a culpa pela desdita. Nem os conselhos do irmão. Apesar dos pesares, calado, com um desvelo incondicional, está sempre na retaguarda, a estender a mão amiga.


Considera-o um herege, por não receber a Palavra como ele.

“Prefiro os que me criticam, porque me corrigem, aos que me elogiam, porque me corrompem.” - Santo Agostinho

terça-feira, 2 de junho de 2015

É muita sinceridade




“Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas são proveitosas;
todas as coisas me são lícitas, mas não me deixarei dominar por nenhuma” (1 Coríntios 6:12)

"Se não fosse a contravenção meter a mão no bolso, organizar, estaríamos ainda naquele negócio de arquibancada caindo, desfile terminando duas horas da tarde, cada escola desfilando duas, três horas e a hora que quer. E a coisa se organizou. (...) Se hoje temos o maior espetáculo audiovisual do planeta, agradeça à contravenção".

Um famoso intérprete de escola de samba fez esta declaração a uma rádio da região Sul do país, ao comentar a vitória de sua agremiação com um enredo que gerou polêmica ao homenagear um regime ditatorial que dura trinta e cinco anos, após ter sido questionado sobre a contribuição de contraventores e de milicianos ao carnaval.

O problema não é a sinceridade do que foi dito, mas a naturalidade com a qual se admite a aceitação, para a realização de evento, de patrocínio oriundo de atividade sabidamente ilícita. E além, de que a participação de agentes envolvidos com atividades ilícitas foi essencial para a profissionalização do espetáculo.

Não se trata de hipocrisia, ou de pretender fechar os olhos para uma realidade.  Realmente, o financiamento do carnaval por agentes que atuam à margem da lei é um fato notório. Quem tem boa memória pode se lembrar de Castor de Andrade, conhecido pelo envolvimento com o jogo do bicho, e pelo patrocínio a escola de samba e a clube de futebol.

A situação deve ser encarada por outro aspecto: o carnavalesco não deve ser visto como um ingênuo, mas sim como um reflexo do nível de deturpação moral em que vivemos. Não há mais constrangimento em se admitir que determinadas atividades são financiadas com dinheiro fruto de ilícito.

É irrelevante, no momento, discutir se foram feitas homenagens a uma ditadura, ou a possibilidade, em um futuro próximo, de se homenagear um grupo terrorista.

Haverá limites, ou um fundo do poço?

É possível ser dito, sem temor: receber dinheiro de procedência ilícita para desenvolver seus projetos é errado, ainda que a conduta não se adeque ao tipo penal da receptação.

O fato do Carnaval no Rio ser realizado, desde as priscas eras, da maneira retratada pelo entrevistado em análise não torna a conduta moralmente lícita.

Se o jogo de azar é uma conduta socialmente aceitável, que a legislação seja alterada para retirá-la da Lei de Contravenções Penais, com todos os ônus decorrentes do exercício de uma atividade lícita.
Tenho conceitos bem sólidos sobre o que é certo ou errado. Infelizmente, nesta era em que o relativismo predomina, eles restam praticamente isolados. Mas não abdicarei de transmiti-los a minha filha.

Não considero nossa personagem ingênua ao fazer a afirmação em análise, mas sobretudo o típico brasileiro que se vangloria de ter conseguido uma vantagem em razão da leniência de nosso sistema. A declaração dele é condenável neste ponto, pois reforça o estado de deformidade moral que vivemos.

Reputo-me de outro mundo. As palavras em discussão causam-me espécie não pela notória verdade nelas contidas, mas pela desfaçatez com que elas foram proferidas, ante a certeza da impunidade (não apenas a responsabilização criminal ou civil, mas principalmente a reprovação moral), denunciado pelo tom de deboche de seu autor, com a naturalidade de quem acredita que está falando de algo socialmente aceitável.

Ela vem ao encontro da tese que um governo de pessoas doentes, ao menos moralmente, contagia toda uma sociedade - seria imaginável uma declaração pública dessa espécie há dez anos atrás, a não ser se provinda de um criminoso incorrigível?

Se existe essa crença que o autor não teve malícia em sua declaração, a despeito de seu tom de pilhéria transmitir o contrário, o problema é muito grave, pois revela que a chaga moral está disseminada por toda uma sociedade.

O inegável fato do Estado ser leniente e patrocinador desse estado de coisas não torna o discurso dele mais palatável, mas o contrário. Também não há como escusá-lo, pois a tese de que atenuação de uma culpa em razão da culpabilidade dos demais que estão ao redor é pusilânime. Esse quadro desolador revela que a defesa de valores morais mais do que nunca deve ser persistente e intransigente. Ou a desejada mudança nunca chegará.

A quem pense que se trata de uma peça de condenação da parte mais fraca da engrenagem: a punição não pode atingir somente uma peça, mas a todas que estiverem, de alguma forma, envolvidas com atividades ilícitas.

Mas não podemos perder a capacidade de se indignar com as pequenas coisas, sob pena de alargar o nosso limite de tolerância e passar a condescender com coisas cada vez maiores.

(Publicado também aqui, em versão alterada)

segunda-feira, 25 de maio de 2015

O pulo do gato



All my life, I've been waiting for a moment
It never came, maybe never will
(Bruce Dickinson - Change of Heart)


A trilha suave do alarme do despertador anuncia mais uma aurora.

Rosana abre os olhos agradecida. Não está mais obrigada a despertar com a voz de "O Pulo do Gato".

Ela se libertou da audição diária da vinheta insuportável do programa radiofônico matinal dileto do "gato". Um sujeito tão afeito a explorar os latões de lixo da freguesia alheia que há algum tempo por lá definitivamente se estabeleceu.

O momento de paz é estranhamente incomensurável, mas as marcas indeléveis das peraltices do bichano permanecem.

A ducha está gelada. Não por opção, mas por não conseguir acertar substituir a resistência do chuveiro. Rosana não pretende aceitar a ajuda de outro "gato" e correr o risco de sofrer novos arranhões.

Ela caminha, a passos trôpegos, quase arrastada, rumo ao ponto de ônibus.

A catinga de moreno suado (do aguado também – a falta de asseio não escolhe tez) invade suas narinas durante o trajeto. A locução de missivas de amor entremeada por canções do “Rei” atinge seus ouvidos como uma lâmina. Nem para sintonizar em uma faixa da frequência FM. Tem o ímpeto de arremessar o rádio de pilha do cobrador pela janela do coletivo. Contém-se, a muito custo.

Finalmente, chega ao seu martírio. Ou melhor, ao seu destino. Algumas horas de fingimento, até que os pais da garotinha saiam para seus trabalhos.

O pai atende a porta com o mesmo gracejo tolo. Simula um susto. Não se manca que o que era para ser piada nunca teve graça.

Há mais livros novos na mesa de centro. Alguns com títulos esquisitos, cujo significado Rosana mal compreende. Ela se indaga, intrigada: “Tantos livros ... Pra quê? Até parece que ele conseguirá lê-los todos ... Duvi-de-o-dó”

Enfim, saíram – Rosana suspira. O almoço durou uma eternidade. Por um período, é a rainha do recinto. Fecha as portas da sala. Toma posse do controle remoto, retira a sandália, estica as pernas e derrama-se no sofá.

A tarde é sua.

Esquece-se da bebê. Passa-lhe pela cabeça a idéia de dar a ela um “leitinho”. Falta-lhe coragem.

O dia termina. A mãe chega. Já não era sem tempo. Rosana a espera com a bolsa à tira-colo e a bebê nos braços. A batida arrítmica dos pés denuncia a ansiedade.

A volta para casa dura uma eternidade. Por mais que tente, não consegue se desvencilhar do mesmo babão, metido a galanteador. O xaveco não muda. A camisa esgarçada. Calça desbotada. “Ai, que miséria!”.

Rosana abstrai e pensa no avô da garotinha. Charmoso. Cheiroso. Fino.

“Se o pego de jeito ... Aff”

Lar, doce lar. Rosana veste o pijama e calça as pantufas. Passa como um raio pela cozinha, para se servir do Cheetos na despensa e do Chicabon no freezer. Corre para o quarto. Vai começar a sessão noturna de tevê. Um pouco da sétima arte - sonhar é preciso.

Instintivamente, estende a mão para o lado, à procura do peito quente do “gato”.
A cama está fria. Está vazia. Deixa escapar um suspiro seco.

... Ai, que falta faz o “gato”.

terça-feira, 31 de março de 2015

Um sugestão é apenas ... Uma sugestão!

"Porque, se perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai celestial vos perdoará a vós;
Se, porém, não perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai vos não perdoará as vossas ofensas." (Mateus 6, 14:15)



Certa feita, em um evento corporativo, encontrei um sujeito conhecido. Mal me cumprimentando, ele disparou, sôfrego: "lembrei-me de você ontem, ao ler uma coluna no jornal". Perguntei-lhe o título. Com a resposta, reconheci-a imediatamente. Uma tolice, já tinha presumido durante a leitura do folhetim. Trocamos algumas amenidades. Não mais o vi durante o dia.

Já em casa, durante a noite, resolvi dar uma chance à autora. Minha expectativa se confirmou. Não me contive e enviei uma mensagem ao rapaz, comentando minhas impressões, comparando-a com um autor que publicou no mesmo dia e com outra do mesmo veiculo de comunicação e do mesmo estilo. Sugeri algumas leituras mais edificantes. Fui dormir e esqueci o assunto.

No dia seguinte, ao espiar a linha do tempo da rede social (coisa que não costumo fazer, por não considerar um hábito salutar, como se verá a seguir), por ironia do destino, deparei-me com uma publicação de nossa personagem.

Por indireta, ela lamuriava por ter "apenas" recomendado um texto descontraído e despretensioso a alguém (como se uma comparação de uma determinada ideologia política a um cão hidrófobo pudesse ser enquadrado nessa categoria; e mais, como se associação desta alegoria a outrem não pudesse ser considerada uma ofensa - mas neste ponto, tudo bem, eu tiro de barato). E o mais inusitado: acusou um "pedantismo" apenas porque lhe foi retribuída a sugestão de leitura com outras.

Bem, senhores, esse episódio nos oferece um termômetro de nossa sociedade.

Uma coluna obscura. Um texto medíocre. Uma autora que se perde na surrada tentativa de rotular quem pensa diferente como agressivo, intolerante ou raivoso. Chega a ser curioso como os "escritores" de determinada linha de pensamento não encontram outro modelo comparativo. Ironia é uma fina arte que não está acessível a qualquer jejuno em artes literárias, pois mais que se tenha milhares de fãs a dizer à “celebridade” o contrário.

Alguém o utiliza para se aludir a outrem, aparentando não se dar conta de seu potencial ofensivo. E o mais grave, demonstra afetação e contrariedade quando alguns outros autores lhe são apresentados. Talvez porque não possa confessar que não entenda a língua inglesa. Ou talvez porque, no alto de sua tolerância, seu corpo seja tomado pela urticária à remota ideia de ter contato com um texto de orientação política diferente da sua.

Em um giro, ofensor se torna ofendido. Risível, se não fosse trágico.

Neste ponto, é inevitável: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem”.

Não se melindre, "amigo".

Uma sugestão é apenas ... Uma sugestão!

Vivemos um tempo em que as referências literárias são Chico ou Paulo. Humorista bom, somente se for a favor. Contra o politicamente inconveniente, vale tudo - é descontraído; é leve; é descompromissado. A “nossa” moral é melhor que a “deles”. A “eles”, nada é permitido, muito menos a ousadia em contestar qualquer coisa.

A pressão para que se mantenha retido e respirando dentro deste ambiente asfixiante é constante.

Aos demais leitores, não se intimem. Tenham ousadia. Há vida muito mais inteligente no oceano imenso que está a suas esperas além desse tanque de águas turvas. É um salto do qual não se arrependerão.

Temos o Flávio, o Alexandre, e o Marcus. Para quem gosta de crônicas, temos o Paulo. Temos o Guy e o outro Alexandre. Desnecessário citar o rottweiler amoroso ou o astrólogo.

E já que se imputa a pecha de "pedante" (mea maxima culpa), temos o Thomas, o Walter, o Ben, a Ann, o Pat, o Dennis, o Dr. Ben e o Humberto, todos da mesma página.

São profundos e interessantes textos, num grau de intelectualidade inimaginável a quem está acostumado com os “debates” por estas plagas. A quem tem um nível de compreensão sofrível do inglês, com a constância e a persistência será possível conquistar um belo incremento na fluência da língua.

Alguns lhes ofenderão, mediante pretensos gracejos, outros tantos se afastarão. Mantenham a firmeza e a retidão de espírito. Tudo passa. Até a insensatez do homem.


Deo gratias!

quarta-feira, 18 de março de 2015

A Natureza do Escorpião





"Nem tudo que reluz é ouro, proclamam os sábios em coro, 
muita gente acaba em choro, por só procurar tesouro. 
Mausoléus são comedouro de vermes em fervedouro. 
Se houvesse sabedoria nessa vossa cortesia, 
a consulta não faria turvar-vos a fantasia."

(Shakespeare, Mercador de Veneza
Ato II, Cena VII)

Diariamente, agradeço a Deus por atrair a meu círculo de amizades pessoas que se apresentam com elevada capacidade intelectual.

No entanto, chama-me a atenção que muitas delas, algumas das quais tenho em alta conta, estão se deixando seduzir e levar pelo encanto da sereia ...


"Nossa! Você viu os últimos posts do japa tonto? Quanta lucidez! Mona, concordo 100% com o último artigo da Elianta Bronca! Um alento! Mano, até o Salafado, sósia do Lenine, está mandando bronca no governo! Cê viu a última da Cartilha Capetal?"


(- Caraca, quanta falta de imaginação! Cada trocadilho mais infame, um pior que o outro ... Você se superou, no pior sentido! Não consegue pensar em nada melhor em alusão a essas personagens ilustres, não?

- 'Rapaiz', tenho que te confessar que não, minha criatividade anda bem em baixa ultimamente ... Meus textos se resumem a rascunhos inacabados, minha esposa não consegue entender minhas falas, que sempre ficam pela metade ... Mas se tiverem sugestões melhores, deixem na caixa de comentários, que as avaliarei com carinho, certo?)

'Gentem', não se enganem ...


Apenas um exemplo: um cérebro que constrói argumentações como a defesa da criminalização da ostentação de bens materiais, ou do 'preconceito' por não se consumar a relação (sim, essa mesma, a da acepção bíblica) com uma ‘bela donzela’ que, no momento de intimidade, inusitadamente se revelasse - hum, podemos dizer assim - dotada com o mesmo ‘instrumento de trabalho’ de seu interessado romântico (estaria a se justificar para a patota?), não se emenda repentinamente.


Esse pessoal produziu, produz e produzirá o chorume do mais baixo nível já visto na imprensa nacional.


Primatas otimizados ou adoráveis bichinhos de estimação demonstram ter mais neurônios e apresentam comportamento mais respeitável que essa gente.


Mesmo nos textos que tem causado estupefação e admiração de tantas pessoas, as quais reputo esclarecidas, é possível encontrar inúmeros atos falhos e indícios de manutenção das mesmas posturas, antigas e cristalizadas, de insistência e subserviência a uma causa (ou a uma ideologia), cuja experiência demonstra que o resultado inevitável a se atingir será "o choro e o ranger de dentes".


A "surpreendente" mudança de "opinião" representa apenas, 
cada qual a sua maneira, uma tentativa de limpar a respectiva reputação, pois o governo que os sustenta cairá, não restam dúvidas, mas eles permanecerão na ativa, órfãos, e precisarão sobreviver sem o capilé.

Se não mantiver alguma audiência, sácumé, né ...


É necessário mostrar-lhes que a liberdade de expressão é sagrada, mas que suas opiniões desonestas, venais, a soldo, são irrelevantes.


A sociedade precisa granjear prensamentos mais elevados, alavancar ao espaço público vozes mais honestas e salutares, dar ouvidos a agentes que sejam portadores de argumentações mais sólidas e intricadas.


E varrer essa egrégora tóxica para o porão da insignificância da qual nunca deveria ter saído.


PS: A lenda que inspirou o título deste post pode ser encontrada aqui.


(Desenvolvimento de uma nota publicada em rede social)

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Prantear ou labutar?






"Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu." 
"... tempo de estar calado, e tempo de falar" 
(Eclesiastes, 3:1,7)

- Dedicado aos "luminares" em "opreçaum", cuja sagaz análise revela que a capacidade neurotransmissora está comprometida pela alopecia, e que a caixa craniana está preenchida por material gasoso, após acolher a implantação de uma unidade avançada da oficina do tinhoso.
 
Meu pai nasceu na roça. 

Contava-nos que, aos cinco anos, começou a colher café na lavoura. 

Nunca mais parou. 

Aos quatorze, era tapeceiro. 

Aos vinte e três, migrou para São Paulo e se tornou metalúrgico. 

Em razão de doença viral, abandonou a atividade braçal e passou a trabalhar em escritório contábil.

Casou-se. 

Morou em pensionato. 

Mudou-se com a família recém-formada para o interior. 

Minhas primeiras lembranças remetem-me à imagem dele, diariamente, pegando o ônibus de Agudos, onde morávamos, para Bauru, onde ele trabalhava. 

Quantas vezes o acompanhei, à pé, ao supermercado, no centro da cidade, em uma caminhada de cerca de meia hora, cujo retorno se tornava mais longo por carregar a sacola cheia e pesada. Em minha tenra idade, eu detinha a cristalina percepção de que levávamos uma vida frugal, onde não havia espaço para extravagâncias. 

Quantas vezes o vi abdicar do descanso aos finais de semana para se dedicar a livros e apostilas. Até que logrou aprovação em concurso público. 

Ele me estimulou a estudar (como ficaram marcadas em minha memória as lições que ele me preparava e trazia do trabalho, com questões que extrapolavam os conhecimentos para a série que eu cursava). 

A perseverar (o doce e indelével júbilo pela aprovação em concurso de ingresso para o curso de preparação de oficiais para as Forças Armadas, que superou e tornou ínfimas as duas reprovações anteriores). 

A trabalhar (quantas vezes eu capinei o quintal, ou ajudei os pedreiros na reforma de uma casa, ou na construção de uma outra, ou fiz inúmeros pequenos serviços. Invariavelmente eu reclamava, por óbvio, mas é aí que reside a magia do momento). 

Eu não precisaria entregar jornais às madrugadas, de domingo a domingo, durante parte da faculdade, mas também perderia a indescritível sensação de independência financeira, e de ter nas mãos (ou no bolso) o resultado do fruto do trabalho. 

Depois de duas reprovações em almejado concurso público, seguidas pelo divórcio de meus pais, eu poderia me resignar, permanecer no exercício da advocacia e levantar o discurso fácil do preconceito de membros de instituição conservadora contra os jovens, ou qualquer outro argumento desculpista, mas a lição de perseverança que assimilei me fez reformular os planos e buscar um objetivo temporário mais modesto, a conferir-me estabilidade. 

Eu poderia me acomodar, após alcançar a primeira meta, permanecer na Polícia Civil, cujo salário satisfazia minhas necessidades, e levantar o discurso fácil do preconceito de membros de instituição conservadora contra os policiais e da dificuldade em conciliar os estudos com o trabalho, ou qualquer outro argumento tergiversador, mas a lição de perseverança que assimilei manteve firme a confiança de que era possível alcançar objetivos pessoais mais altos. 

Durante todo esse percurso, os inúmeros testemunhos apresentados pela vida mostraram-me as consequências desastrosas de ceder ao discurso fácil, doce e sedutor do vitimismo. 

Para quem não tenha passado por maiores adversidades, ou que tenha a cabeça cheia de teorias de um japonês boboca, talvez tudo isso represente apenas um grande roteiro espalhafatoso de uma apresentação de picadeiro, ou uma peça de discurso rocambolesco de um palestrante de auto-ajuda. 

Mas talvez lhe falte conversar com aquele que está ao lado (para que o diga: minha trajetória de vida também foi semelhante, e o faça perceber que se trata de um evento muito mais comum do que certos "ideólogos" apregoam), ou ainda buscar inspiração em exemplos mais elevados (na música, no esporte, nas artes, nas profissões liberais ou nos intelectuais - hum, nestes, melhor não, se for se restringir à "intelectualidade" que hoje predomina em nosso meio). 


Uma certa dose de contato com a realidade, na verdade. 


Para que se desperte da letargia, comece a cair em si e se inicie o processo de visualizar a estultícia do discurso aparvalhado de revolucionários que sequer conseguem tratar a própria derme para curar a respectiva icterícia, quanto mais transmutar o mundo na versão terrestre do éden.




PS.: Não poderia abandonar a foto da publicação original na rede social ... perderia todo o charme e o espírito que envolveu a criação do texto.

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Democracia Seletiva


Ultrapassou-se um turno de votação para a eleição à Presidência da República.

Para muitos, o resultado representou os contornos alvissareiros de um horizonte de bonança que se descortina após a rigorosa tempestade.

(Concessa maxima venia, como diriam os romanos) Com o perdão do ceticismo, mas os sinais não me parecem tão promissores …

Ainda vejo pessoas que demonstram afetação, com ares de uma suposta incompreensão, em razão da expressiva eleição de um candidato a deputado, cuja maior acusação criminal foi a prática de pesca de forma ilegal, o qual lhe foi imputado o rótulo de detentor de um discurso de ódio, e que foi aceita pelo senso comum, sem que se tenha a prudência de se analisar dois ou três de seus pronunciamentos, fruto de uma maciça propaganda de uma militância que se declara capaz de pegar em armas para a defesa de seus sedizentes direitos.

São pessoas que não demonstram a mesma indignação para criticar a também significativa votação de um outro partido, cujos membros ainda não esclareceram suas relações espúrias com um grupo de baderneiros, que apresentou o péssimo hábito de destruir o que encontrava pela frente durante as águas de junho, reivindicando-o como um direito supremo e uma cândida forma de “manifestação”, tentam calar a opinião contrária com a censura sutil, ou são flagrados confessando que receberam dinheiro de sindicato para a criação e o financiamento de campanha política do partido, em clara violação à lei eleitoral.

A democracia, para esses “tolerantes”, é restrita aos que aderem ao pensamento hegemônico politicamente conveniente instaurado. Aos demais, resta o contentamento de participar dessa gloriosa sociedade em reverencial silêncio.

Quando identificamos indícios de que as pessoas tateiam os primeiros passos em direção de um caminho menos tortuoso, elas prontamente nos demonstram que a patocracia instalada em nosso meio ainda demorará algum tempo para ser extirpada.

...

Mas então, depois de se jogar um belo balde de água gelada em nossas ilusões e arrefecer a nossa efêmera alegria, ao se apontar para um desagradável estado de coisas, quer dizer que não nos resta esperança alguma?

De forma alguma (ou pas du tout, como eles dizem lá, de maneira mais sonora).

A partir do momento em que se perdem as ilusões sobre esta vida, em que se tenta compreender qual a amplitude da noção de imortalidade e em que se denota o quanto a nossa realidade está além dos estímulos sensoriais, a forma de encarar a existência se transfigura.

Compreendemos que a volúpia, a qual buscamos satisfazer com desmedida ânsia, nada representa ante a imensidão da eternidade.

Passamos a perceber que as verdadeiras mudanças não são aquelas decorrentes da enganosa revolução, que promete reduzir a pó tudo o que foi arduamente construído ao longo do tempo por homens considerados ultrapassados pela soberba juvenil e remodelar mágica e instantaneamente o mundo em um jardim de delícias fantasiado nas mentes de desvairados messias.

Damo-nos conta de que as verdadeiras mudanças são, tão somente, aquelas que estão ao alcance de nossos diminutos braços, que são passíveis de se operar pelo processo de aprendizado adquirido pelo custoso, paciente e disciplinado estudo, que voltam o olhar para o intimo e auscultam o que vai ao coração, buscando corrigir graves e ocultas deficiências, e que tentam educar os nossos pequenos, sobretudo, com o nosso reto exemplo.

... E regozijados, genuflexos, após a retirada da trave que turvava a nossa visão, agradecidos ficaremos pelas mais ínfimas oportunidades seguintes de burilamento.