All my life, I've been waiting for a moment
It never came, maybe never will
(Bruce Dickinson - Change of Heart)
A trilha suave do alarme do despertador anuncia mais uma aurora.
Rosana abre os olhos agradecida. Não está mais obrigada a despertar com a voz de "O Pulo do Gato".
Ela se libertou da audição diária da vinheta insuportável do programa radiofônico matinal dileto do "gato". Um sujeito tão afeito a explorar os latões de lixo da freguesia alheia que há algum tempo por lá definitivamente se estabeleceu.
O momento de paz é estranhamente incomensurável, mas as marcas indeléveis das peraltices do bichano permanecem.
A ducha está gelada. Não por opção, mas por não conseguir acertar substituir a resistência do chuveiro. Rosana não pretende aceitar a ajuda de outro "gato" e correr o risco de sofrer novos arranhões.
Ela caminha, a passos trôpegos, quase arrastada, rumo ao ponto de ônibus.
A catinga de moreno suado (do aguado também – a falta de asseio não escolhe tez) invade suas narinas durante o trajeto. A locução de missivas de amor entremeada por canções do “Rei” atinge seus ouvidos como uma lâmina. Nem para sintonizar em uma faixa da frequência FM. Tem o ímpeto de arremessar o rádio de pilha do cobrador pela janela do coletivo. Contém-se, a muito custo.
Finalmente, chega ao seu martírio. Ou melhor, ao seu destino. Algumas horas de fingimento, até que os pais da garotinha saiam para seus trabalhos.
O pai atende a porta com o mesmo gracejo tolo. Simula um susto. Não se manca que o que era para ser piada nunca teve graça.
Há mais livros novos na mesa de centro. Alguns com títulos esquisitos, cujo significado Rosana mal compreende. Ela se indaga, intrigada: “Tantos livros ... Pra quê? Até parece que ele conseguirá lê-los todos ... Duvi-de-o-dó”
Enfim, saíram – Rosana suspira. O almoço durou uma eternidade. Por um período, é a rainha do recinto. Fecha as portas da sala. Toma posse do controle remoto, retira a sandália, estica as pernas e derrama-se no sofá.
A tarde é sua.
Esquece-se da bebê. Passa-lhe pela cabeça a idéia de dar a ela um “leitinho”. Falta-lhe coragem.
O dia termina. A mãe chega. Já não era sem tempo. Rosana a espera com a bolsa à tira-colo e a bebê nos braços. A batida arrítmica dos pés denuncia a ansiedade.
A volta para casa dura uma eternidade. Por mais que tente, não consegue se desvencilhar do mesmo babão, metido a galanteador. O xaveco não muda. A camisa esgarçada. Calça desbotada. “Ai, que miséria!”.
Rosana abstrai e pensa no avô da garotinha. Charmoso. Cheiroso. Fino.
“Se o pego de jeito ... Aff”
Lar, doce lar. Rosana veste o pijama e calça as pantufas. Passa como um raio pela cozinha, para se servir do Cheetos na despensa e do Chicabon no freezer. Corre para o quarto. Vai começar a sessão noturna de tevê. Um pouco da sétima arte - sonhar é preciso.
Instintivamente, estende a mão para o lado, à procura do peito quente do “gato”.
A cama está fria. Está vazia. Deixa escapar um suspiro seco.
... Ai, que falta faz o “gato”.
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