quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Democracia Seletiva


Ultrapassou-se um turno de votação para a eleição à Presidência da República.

Para muitos, o resultado representou os contornos alvissareiros de um horizonte de bonança que se descortina após a rigorosa tempestade.

(Concessa maxima venia, como diriam os romanos) Com o perdão do ceticismo, mas os sinais não me parecem tão promissores …

Ainda vejo pessoas que demonstram afetação, com ares de uma suposta incompreensão, em razão da expressiva eleição de um candidato a deputado, cuja maior acusação criminal foi a prática de pesca de forma ilegal, o qual lhe foi imputado o rótulo de detentor de um discurso de ódio, e que foi aceita pelo senso comum, sem que se tenha a prudência de se analisar dois ou três de seus pronunciamentos, fruto de uma maciça propaganda de uma militância que se declara capaz de pegar em armas para a defesa de seus sedizentes direitos.

São pessoas que não demonstram a mesma indignação para criticar a também significativa votação de um outro partido, cujos membros ainda não esclareceram suas relações espúrias com um grupo de baderneiros, que apresentou o péssimo hábito de destruir o que encontrava pela frente durante as águas de junho, reivindicando-o como um direito supremo e uma cândida forma de “manifestação”, tentam calar a opinião contrária com a censura sutil, ou são flagrados confessando que receberam dinheiro de sindicato para a criação e o financiamento de campanha política do partido, em clara violação à lei eleitoral.

A democracia, para esses “tolerantes”, é restrita aos que aderem ao pensamento hegemônico politicamente conveniente instaurado. Aos demais, resta o contentamento de participar dessa gloriosa sociedade em reverencial silêncio.

Quando identificamos indícios de que as pessoas tateiam os primeiros passos em direção de um caminho menos tortuoso, elas prontamente nos demonstram que a patocracia instalada em nosso meio ainda demorará algum tempo para ser extirpada.

...

Mas então, depois de se jogar um belo balde de água gelada em nossas ilusões e arrefecer a nossa efêmera alegria, ao se apontar para um desagradável estado de coisas, quer dizer que não nos resta esperança alguma?

De forma alguma (ou pas du tout, como eles dizem lá, de maneira mais sonora).

A partir do momento em que se perdem as ilusões sobre esta vida, em que se tenta compreender qual a amplitude da noção de imortalidade e em que se denota o quanto a nossa realidade está além dos estímulos sensoriais, a forma de encarar a existência se transfigura.

Compreendemos que a volúpia, a qual buscamos satisfazer com desmedida ânsia, nada representa ante a imensidão da eternidade.

Passamos a perceber que as verdadeiras mudanças não são aquelas decorrentes da enganosa revolução, que promete reduzir a pó tudo o que foi arduamente construído ao longo do tempo por homens considerados ultrapassados pela soberba juvenil e remodelar mágica e instantaneamente o mundo em um jardim de delícias fantasiado nas mentes de desvairados messias.

Damo-nos conta de que as verdadeiras mudanças são, tão somente, aquelas que estão ao alcance de nossos diminutos braços, que são passíveis de se operar pelo processo de aprendizado adquirido pelo custoso, paciente e disciplinado estudo, que voltam o olhar para o intimo e auscultam o que vai ao coração, buscando corrigir graves e ocultas deficiências, e que tentam educar os nossos pequenos, sobretudo, com o nosso reto exemplo.

... E regozijados, genuflexos, após a retirada da trave que turvava a nossa visão, agradecidos ficaremos pelas mais ínfimas oportunidades seguintes de burilamento.