terça-feira, 2 de junho de 2015

É muita sinceridade




“Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas são proveitosas;
todas as coisas me são lícitas, mas não me deixarei dominar por nenhuma” (1 Coríntios 6:12)

"Se não fosse a contravenção meter a mão no bolso, organizar, estaríamos ainda naquele negócio de arquibancada caindo, desfile terminando duas horas da tarde, cada escola desfilando duas, três horas e a hora que quer. E a coisa se organizou. (...) Se hoje temos o maior espetáculo audiovisual do planeta, agradeça à contravenção".

Um famoso intérprete de escola de samba fez esta declaração a uma rádio da região Sul do país, ao comentar a vitória de sua agremiação com um enredo que gerou polêmica ao homenagear um regime ditatorial que dura trinta e cinco anos, após ter sido questionado sobre a contribuição de contraventores e de milicianos ao carnaval.

O problema não é a sinceridade do que foi dito, mas a naturalidade com a qual se admite a aceitação, para a realização de evento, de patrocínio oriundo de atividade sabidamente ilícita. E além, de que a participação de agentes envolvidos com atividades ilícitas foi essencial para a profissionalização do espetáculo.

Não se trata de hipocrisia, ou de pretender fechar os olhos para uma realidade.  Realmente, o financiamento do carnaval por agentes que atuam à margem da lei é um fato notório. Quem tem boa memória pode se lembrar de Castor de Andrade, conhecido pelo envolvimento com o jogo do bicho, e pelo patrocínio a escola de samba e a clube de futebol.

A situação deve ser encarada por outro aspecto: o carnavalesco não deve ser visto como um ingênuo, mas sim como um reflexo do nível de deturpação moral em que vivemos. Não há mais constrangimento em se admitir que determinadas atividades são financiadas com dinheiro fruto de ilícito.

É irrelevante, no momento, discutir se foram feitas homenagens a uma ditadura, ou a possibilidade, em um futuro próximo, de se homenagear um grupo terrorista.

Haverá limites, ou um fundo do poço?

É possível ser dito, sem temor: receber dinheiro de procedência ilícita para desenvolver seus projetos é errado, ainda que a conduta não se adeque ao tipo penal da receptação.

O fato do Carnaval no Rio ser realizado, desde as priscas eras, da maneira retratada pelo entrevistado em análise não torna a conduta moralmente lícita.

Se o jogo de azar é uma conduta socialmente aceitável, que a legislação seja alterada para retirá-la da Lei de Contravenções Penais, com todos os ônus decorrentes do exercício de uma atividade lícita.
Tenho conceitos bem sólidos sobre o que é certo ou errado. Infelizmente, nesta era em que o relativismo predomina, eles restam praticamente isolados. Mas não abdicarei de transmiti-los a minha filha.

Não considero nossa personagem ingênua ao fazer a afirmação em análise, mas sobretudo o típico brasileiro que se vangloria de ter conseguido uma vantagem em razão da leniência de nosso sistema. A declaração dele é condenável neste ponto, pois reforça o estado de deformidade moral que vivemos.

Reputo-me de outro mundo. As palavras em discussão causam-me espécie não pela notória verdade nelas contidas, mas pela desfaçatez com que elas foram proferidas, ante a certeza da impunidade (não apenas a responsabilização criminal ou civil, mas principalmente a reprovação moral), denunciado pelo tom de deboche de seu autor, com a naturalidade de quem acredita que está falando de algo socialmente aceitável.

Ela vem ao encontro da tese que um governo de pessoas doentes, ao menos moralmente, contagia toda uma sociedade - seria imaginável uma declaração pública dessa espécie há dez anos atrás, a não ser se provinda de um criminoso incorrigível?

Se existe essa crença que o autor não teve malícia em sua declaração, a despeito de seu tom de pilhéria transmitir o contrário, o problema é muito grave, pois revela que a chaga moral está disseminada por toda uma sociedade.

O inegável fato do Estado ser leniente e patrocinador desse estado de coisas não torna o discurso dele mais palatável, mas o contrário. Também não há como escusá-lo, pois a tese de que atenuação de uma culpa em razão da culpabilidade dos demais que estão ao redor é pusilânime. Esse quadro desolador revela que a defesa de valores morais mais do que nunca deve ser persistente e intransigente. Ou a desejada mudança nunca chegará.

A quem pense que se trata de uma peça de condenação da parte mais fraca da engrenagem: a punição não pode atingir somente uma peça, mas a todas que estiverem, de alguma forma, envolvidas com atividades ilícitas.

Mas não podemos perder a capacidade de se indignar com as pequenas coisas, sob pena de alargar o nosso limite de tolerância e passar a condescender com coisas cada vez maiores.

(Publicado também aqui, em versão alterada)

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