"Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas as coisas convêm; todas as coisas me são lícitas, mas nem todas as coisas edificam”. (1 Coríntios 10:23)
Certa feita (“era uma vez”, diria-se outrora), existia um rapaz.
Poderíamos chamá-lo de William, Guilherme (“é a mesma coisa” - eu sei), Leandro (também te amo), ou Antônio (pensou que eu o deixaria para trás?). Já que estamos a render homenagens, batizar-lo-emos de Paulinho.
Devoto. Seria confundido com um radtrad se não professasse outra crença. Camisa engomada com esmero pela mamãe Maria Helena. Tinha por hábito abotoá-la até a última casa, não importava o clima. Cabelos cuidadosamente alinhados, regularmente aparados (frequentemente, acordava, num frêmito, com a imagem fixa de que lhe restavam apenas cinco fios em uma vasta área calva). Um português irrepreensível. Flexivel como uma rocha. Ou uma liga de adamantium. Auxiliava a família principalmente cortando lenha para o fogão e a lareira.
Mas Paulinho era dado a valentias. Começou cutucando onças no retorno para casa. Cutucou uma, cutucou duas, cutucou três vezes. Alegrava-se com a reação delas. Por vezes, apenas corria. Outras, regozijava-se ao fazê-las de tolas. Ora, bradava acintes. Voltava radiante, peito estufado, sentindo-se triunfante. Estava pronto para conquistar o mundo.
Fazia ouvidos moucos aos alertas do irmão, “minino, isso não vai acabar bem”.
Paulinho escarnecia: - Maricas. Está a me cercear. Tudo posso naquele que me fortalece.
Com o tempo, a tarefa diária de cortar lenha para a família cedeu espaço à aventura de cutucar onças. Onças maiores. Varas mais curtas.
Um dia, Paulinho se viu cercado por onças. Fugir, impossível. Gritar, inútil. Atacar, inviável. Deixou o machado cair, fora de seu alcance. Uma das feras, talvez a mais enraivecida, tomou a iniciativa e abocanhou sua mão direita. Imediatamente, desfaleceu.
Acordou em um leito. Desorientado, suas pernas ainda tiveram o espasmo de correr. Contido, indagou pelo seu Salvador. O irmão respondeu, “eu sempre o observava à distância, para não irritá-lo, pois meus reclamos eram inúteis e temia pelo pior”.
Hoje, Paulinho não corta mais lenhas. Nem cutuca onças. Precisa de auxílio para as tarefas básicas. Constrangido, é obrigado a permitir que fechem sua braguilha. Blasfema.
Ainda não aceita a culpa pela desdita. Nem os conselhos do irmão. Apesar dos pesares, calado, com um desvelo incondicional, está sempre na retaguarda, a estender a mão amiga.
Considera-o um herege, por não receber a Palavra como ele.
“Prefiro os que me criticam, porque me corrigem, aos que me elogiam, porque me corrompem.” - Santo Agostinho
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