quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Prantear ou labutar?






"Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu." 
"... tempo de estar calado, e tempo de falar" 
(Eclesiastes, 3:1,7)

- Dedicado aos "luminares" em "opreçaum", cuja sagaz análise revela que a capacidade neurotransmissora está comprometida pela alopecia, e que a caixa craniana está preenchida por material gasoso, após acolher a implantação de uma unidade avançada da oficina do tinhoso.
 
Meu pai nasceu na roça. 

Contava-nos que, aos cinco anos, começou a colher café na lavoura. 

Nunca mais parou. 

Aos quatorze, era tapeceiro. 

Aos vinte e três, migrou para São Paulo e se tornou metalúrgico. 

Em razão de doença viral, abandonou a atividade braçal e passou a trabalhar em escritório contábil.

Casou-se. 

Morou em pensionato. 

Mudou-se com a família recém-formada para o interior. 

Minhas primeiras lembranças remetem-me à imagem dele, diariamente, pegando o ônibus de Agudos, onde morávamos, para Bauru, onde ele trabalhava. 

Quantas vezes o acompanhei, à pé, ao supermercado, no centro da cidade, em uma caminhada de cerca de meia hora, cujo retorno se tornava mais longo por carregar a sacola cheia e pesada. Em minha tenra idade, eu detinha a cristalina percepção de que levávamos uma vida frugal, onde não havia espaço para extravagâncias. 

Quantas vezes o vi abdicar do descanso aos finais de semana para se dedicar a livros e apostilas. Até que logrou aprovação em concurso público. 

Ele me estimulou a estudar (como ficaram marcadas em minha memória as lições que ele me preparava e trazia do trabalho, com questões que extrapolavam os conhecimentos para a série que eu cursava). 

A perseverar (o doce e indelével júbilo pela aprovação em concurso de ingresso para o curso de preparação de oficiais para as Forças Armadas, que superou e tornou ínfimas as duas reprovações anteriores). 

A trabalhar (quantas vezes eu capinei o quintal, ou ajudei os pedreiros na reforma de uma casa, ou na construção de uma outra, ou fiz inúmeros pequenos serviços. Invariavelmente eu reclamava, por óbvio, mas é aí que reside a magia do momento). 

Eu não precisaria entregar jornais às madrugadas, de domingo a domingo, durante parte da faculdade, mas também perderia a indescritível sensação de independência financeira, e de ter nas mãos (ou no bolso) o resultado do fruto do trabalho. 

Depois de duas reprovações em almejado concurso público, seguidas pelo divórcio de meus pais, eu poderia me resignar, permanecer no exercício da advocacia e levantar o discurso fácil do preconceito de membros de instituição conservadora contra os jovens, ou qualquer outro argumento desculpista, mas a lição de perseverança que assimilei me fez reformular os planos e buscar um objetivo temporário mais modesto, a conferir-me estabilidade. 

Eu poderia me acomodar, após alcançar a primeira meta, permanecer na Polícia Civil, cujo salário satisfazia minhas necessidades, e levantar o discurso fácil do preconceito de membros de instituição conservadora contra os policiais e da dificuldade em conciliar os estudos com o trabalho, ou qualquer outro argumento tergiversador, mas a lição de perseverança que assimilei manteve firme a confiança de que era possível alcançar objetivos pessoais mais altos. 

Durante todo esse percurso, os inúmeros testemunhos apresentados pela vida mostraram-me as consequências desastrosas de ceder ao discurso fácil, doce e sedutor do vitimismo. 

Para quem não tenha passado por maiores adversidades, ou que tenha a cabeça cheia de teorias de um japonês boboca, talvez tudo isso represente apenas um grande roteiro espalhafatoso de uma apresentação de picadeiro, ou uma peça de discurso rocambolesco de um palestrante de auto-ajuda. 

Mas talvez lhe falte conversar com aquele que está ao lado (para que o diga: minha trajetória de vida também foi semelhante, e o faça perceber que se trata de um evento muito mais comum do que certos "ideólogos" apregoam), ou ainda buscar inspiração em exemplos mais elevados (na música, no esporte, nas artes, nas profissões liberais ou nos intelectuais - hum, nestes, melhor não, se for se restringir à "intelectualidade" que hoje predomina em nosso meio). 


Uma certa dose de contato com a realidade, na verdade. 


Para que se desperte da letargia, comece a cair em si e se inicie o processo de visualizar a estultícia do discurso aparvalhado de revolucionários que sequer conseguem tratar a própria derme para curar a respectiva icterícia, quanto mais transmutar o mundo na versão terrestre do éden.




PS.: Não poderia abandonar a foto da publicação original na rede social ... perderia todo o charme e o espírito que envolveu a criação do texto.

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